terça-feira, outubro 30, 2012

combate à ansiedade: dia 6

as corridas continuam a revelar-se o melhor remédio para combater os receios da bobina no meio da cidade. basta pôr o turbo um minuto ou dois e lá vai ela descontraída pela rua fora. eu é que vou ter de me decidir a regressar ao ginásio, caso contrário não aguento este ritmo...

maior progresso do dia: depois de duas séries de 15 minutos de independência, em que chegou mesmo a adormecer, por duas vezes a bobina foi, pelo próprio pé, dormir as suas variadas sestas, sozinha, para a cozinha.

feliz constatação de final de dia: já perdi conta dos dias que passaram sem que a bobina tivesse comido alimentos impróprios para consumo canino no café da esquina, nas pastelarias, na rua em geral. há mesmo males que vêm por bem. nunca pensei que esta questão se resolvesse por si só, sem que eu tivesse de intervir drasticamente. ironicamente, a culpa foi de um camião do lixo.

segunda-feira, outubro 29, 2012

combate à ansiedade: dia 5

e ao quinto dia subimos a parada para os 15 minutos de independência da bobina. limpinho. sem reclamações. a chegada a casa continua a provocar mais barulho e ansiedade, mas quando a vou libertar não deixa dúvidas de que está só a testar a minha autoridade. acaba por se deitar no chão num abrir e fechar de olhos.

continua meio insegura nos passeios, mas já percebi que as corridas são a solução. depois de uma corrida pela rua acima, acaba por se esquecer dos barulhos e dos carros. não consigo perceber a associação que a cabeça da bobina fez, mas o certo é que demonstra sempre menos medos quando a levo para sítios novos e diferentes daqueles em que passeava habitualmente, mesmo que tenham carros e mais movimento do que os descampados que temos feito por encontrar.

e do mesmo modo que tem rejeitado sítios do costume, a bobina também tem demonstrado maior afecto por novos amigos, continuando a ignorar aqueles para quem costumava correr desalmadamente para os braços. já adotou os novos amigos vizinhos e sua casa :)

bobina altiva

depois do susto, apesar da bobina já ter recuperado o gosto pelos passeios, não voltou (ainda) a mostrar a mesma sociabilidade com a vizinhança, que anda desgostosa com a indiferença da bobina, por onde passa. 

a cadela que parecia que gostava de sair à rua para encontrar os vizinhos de todos os dias, tal era a alegria que demonstrava sempre quando se cruzava com eles, agora não liga nenhuma à maioria das pessoas. salvo raras excepções, porque há um dois eleitos a quem ela continua a fazer-lhes ganhar o dia com a felicidade que demonstra quando os reconhece.

o bom nisto tudo é que, por acréscimo, deixou de pedir comida com o olhar, a tudo e todos. por agora, acabaram mesmo os petisquinhos nas pastelarias e na rua.

domingo, outubro 28, 2012

combate à ansiedade: dia 4

tudo a correr dentro da normalidade. a família e os amigos começaram hoje a pôr também em prática as novas regras com a bobina, que ainda chora quando me afasto para ir ao supermercado ou a uma loja e tem de ficar aos cuidados de outra pessoa, mas sem grandes alaridos. ansiamos pelo dia em que possa deixar a bobina à porta do supermercado, calma e tranquila, à minha espera, como vejo tantos outros donos fazer.

em casa, continuamos com a fasquia nos dez minutos de independência, sem problemas de qualquer espécie. hoje a bobina já esperou na cama dela, deitada, tranquilamente. as esperas que acompanham as minhas chegadas a casa são bastante mais agitadas, mas nada que não passe em 5 ou 10 minutos de falta de atenção.

sábado, outubro 27, 2012

combate à ansiedade: dia 3

primeiro fim de semana com novas regras instaladas. tal como em qualquer situação que exija maior controlo da nossa parte, como uma dieta, estes novos hábitos na vida da bobina tornam-se mais complicados de cumprir ao fim de semana, pela mudança que há em relação às rotinas que se impõem de 2ª a 6ª. a bobina está menos tempo sozinha, anda mais na rua, está exposta a mais situações em que a seu tempo começará a demonstrar menos ansiedade. para já, continua a ladrar aos cães na rua :)

- ao terceiro dia, a bobina recuperou a alegria de ir à rua, mas com trela. continua a sentar-se facilmente quando lho peço, antes de lhe pôr a trela. se, por acaso, a alicio a ir à rua e a deixo sair sem trela, até ao passeio, não avança, fica na escada parada. se lhe ponho a trela, é vê-la correr porta fora. já passeia sem problemas, dando apenas mostras de medo dos carros em locais muito específicos, que já identifiquei. curiosamente, nos sítios onde mais tempo passava antes do episódio do camião do lixo...

- mais progressos da rua: como almocei numa esplanada, levei a bobina. arrisquei tudo, se tivermos em conta que a esplanada fica junto à estrada de benfica, onde circulam autocarros a todo o instante. os mesmos monstros que durante os últimos 15 dias a fizeram querer fugir a sete pés para casa, com o rabinho entre as pernas. durante cerca de uma hora a bobina assistiu da bancada aos autocarros a passar para um lado e para o outro, impávida e serena. melhor ainda, ladrou por duas vezes a cães que passavam do outro lado da rua, em sinal de recuperação de parte da confiança perdida, e que a chegou a deixar muda durante uma semana.

- aumentámos o tempo de espera na cozinha de 5 para 10 minutos. por estarmos mais tempo fora de casa, só houve tempo para uma sessão de independência ao final da tarde. ao fim do 10 minutos, quando fui ver, a bobina estava deitada na cama dela, na cozinha, e quando abri a porta nem se levantou. aguardou pacientemente, deitada, pelas festinhas de recompensa, e só depois veio atrás de mim.


sexta-feira, outubro 26, 2012

combate à ansiedade: dia 2

conforme previsto, revela-se tudo muito mais fácil para a bobina a adaptação a estas mudanças, do que para quem tem de gerir isto tudo. já pensei em colar post-its pela casa toda (seriam 2 ou 3) a lembrar-me do que posso ou não fazer agora. porque, em suma:

- a bobina já para a porta da casa de banho para que eu possa fechar a porta. há três dias entrava em sprint em direção à minhas pernas num salto bem dado e cheio de balanço. agora, espera cá fora, deitada, à minha espera. em alturas de maior alegria ainda fica colada à porta, mas são já menos do que se esperava.

- os passeios melhoraram da noite para o dia. é caso que o medo dos carros e dos barulhos está a desaparecer tão depressa como apareceu. e o primeiro passo para o regresso ao local do crime pelo próprio pé foi dado hoje. Apesar de ainda não se sentir à vontade no café da esquina, a bobina já puxou para lá durante o passeio e entrou. deu uma volta na zona das mesas e quis sair, ainda sem uma visita ao cantinho do balcão - de onde vislumbrou o maldito camião do lixo, que a aterrorizou.

- os cinco minutos de independência na cozinha durante a tarde, cumpre-os com uma perna às costas, já deitada na cama dela.

- o tempo de espera para as festinhas a que agora tem de se habituar quando chego a casa, também tem sido tranquilo. à tarde é mais pacífico do que à noite, porque quando entro em casa, por exemplo, às 15h, apanho-a a meio de uma sesta, ou seja, ainda está a meio gás. volvidos os 5 minutos, encontro-a deitada no chão à espera. quando saio à noite e regresso por exemplo às 2h da manhã, há mais carnaval enquanto aguarda que vá ter com ela, e sai mais agitada, mas nada de exagerado e que não passe com umas corridas no terraço. as festas saem apenas quando acaba por se sentar ou deitar no chão. ela não dá mostras de ressentimentos :)

quinta-feira, outubro 25, 2012

pulgas impermeáveis

deve haver nova praga de pulgas em benfica. só hoje, já saquei do lombinho da bobina algumas dez pulgas. a maioria já sem vida, o que significa que o antipulgas está a fazer efeito, mas o que é sinal também que as sacaninhas (eram todas minúsculas) petiscaram nas costas da bobina. pela calada. assim se justifica o súbito ataque de comichões que a voltou a atacar nos últimos dias, depois de meses sem dar mostras do famoso movimento de tocar guitarra,ou harpa, (conforme os gostos musicais dos donos), que quem tem cães tão bem conhece. faremos novas vistorias sempre que a bobina tocar mais uns acordes. já nem com o céu a cair as pulgas se remetem à sua insignificância...

Combate à ansiedade: dia 1

a bobina é o que se pode chamar uma ótima paciente. e confirma a teoria da profª ilda rosa de que é uma cadela que faz tudo para agradar a dona. o rescaldo do primeiro dia da nova vida da bobina foi um sucesso. a pequenita revelou-se uma verdadeira paz de alma no que respeita à adaptação às novas rotinas do mimo. e passo a enumerar:

- quando fechei a porta da casa de banho de manhã, pela primeira vez, a bobina tentou abri-la com o focinho, empurrou duas vezes. não conseguindo, voltou para o banquinho dela e deitou-se a dormir a sesta que dorme diariamente enquanto tomo banho. nas vezes seguintes, durante a tarde, ora esperou sentada à porta, ora permaneceu deitada no chão, tal como estava.

- antes da saída para o passeio matinal, sentou-se tal como lhe pedi antes de lhe pôr a trela. não foram precisos mais do que 5 segundos para que correspondesse ao pedido.

- durante o passeio não demonstrou grandes medos em relação aos barulhos e aos carros, por isso não precisei de aplicar a técnica do seguir em frente ignorando os puxões para casa.

- no meu regresso a casa, respirei fundo antes de entrar, para pôr em prática do modo mais assertivo possível aquela que à partida me parece a tarefa mais difícil para mim, não para ela. cumpri o prometido, e entrei sem lhe ligar nenhuma. esperei 5 minutos, cronometrados, até lhe abrir a porta da cozinha. quando abri a porta, ignorei por completo os apelos da bobina para que lhe desse a minha atenção. virei-lhe costas quando me saltou para as pernas, e fingi não ouvir os guinchos nervosos de felicidade que geralmente acompanham os saltos quando e chego a casa. bastou o tempo de lavar a loiça que tinha deixado do dia anterior para que se acalmasse e se deitasse aos meus pés. quando acabei, sequei as mãos e calmamente lhe dei as primeiras festas da tarde. ela permaneceu deitada, já calma.

- durante a tarde, fechei-a na cozinha por três vezes durante 5 minutos, mais uma vez cronometrados. foi o primeiro passo a caminho da 1 hora completa de independência entre cadela e dona no mesmo espaço. a bobina não chorou, não guinchou, não ladrou, nem se atirou contra a porta. foi simplesmente até à porta confirmar se conseguia sair. sem sucesso, sentou-se sossegada no meio da cozinha, de olhos postos na porta (como a porta é tipo bar western é possível observar, de mansinho, claro). amanhã, conto que já se deite pelo menos no último minuto.

- no passeio da tarde demonstrou medo dos carros. ignorei os puxões e segui caminho, e acabei por conseguir dar uma volta maior do que qualquer uma que lhe consegui arrancar desde há 15 dias para cá. 

- no passeio da noite, ignorou por completo os carros. só não me aventurou ao passeio de meia hora pelas ameaças constantes da chuva.


quarta-feira, outubro 24, 2012

um futuro melhor em 5 passos

a partir de amanhã tudo muda na constante educação da bobina. queremos pôr termo, ou pelo menos atenuar, a ansiedade com que veio ao mundo, de maneira a que tenha um resto e vida tranquilinho e descansado. é que com cama, comida e roupa lavada ela não tem que se preocupar para o resto da vida, por isso não há motivos para viver em stress sempre que a rotina lhe foge ao controlo. o objetivo dos próximos meses é fazer com que a bobina se torne numa cadela mais independente, e me devolva tb pelo parte da independência que perdi, desde o dia em que ela entrou por aquela porta. para bem de todos.

1º passo: quando entro em casa, só vou ter com a bobina 5 minutos depois de chegar. abro a porta da cozinha e se ela ainda estiver agitada terei de a ignorar. festas só quando se resignar e se deitar no chão.
ou seja:
acabaram as festas quando chego a casa. enquanto não estou em casa, a bobina fica com a cozinha e o terraço à sua disposição. até aqui, quando regressava, a primeira coisa a fazer era abrir-lhe a porta da cozinha e traze-la para a minha cama para lhe dar festas, e a seguir, de volta à cozinha, um biscoito. fim. 

2º passo: quando vou à casa de banho, porta sempre fechada. momento de independência para mim.

3º passo: sempre que eu estiver em casa, a bobina vai ter de ficar, primeiro, 5 minutos sozinha na cozinha e no terraço, depois 10, depois 15, depois 20, até conseguir estar uma hora por dia sozinha com os seus pensamentos mesmo comigo em casa. tudo para que se torne mais independente, e deixe de sentir que tem de controlar todos os meus passos a toda a hora.

4º passo: sempre que a bobina ladrar a outro cão, a um vizinho que entra no prédio, ou ao que quer que for, devo ignorar para que perceba que ninguém lhe está a ligar, e sobretudo, que não tem as costas quentes. ao sentir-se desprotegida, se tudo correr como previsto deixará de ladrar aos outros cães, que tiveram o azar de nascer maiores do que ela.

5º passo: mudar o roteiro dos passeios e evitar levá-la para sítios com muita gente e muito movimento. optar por sítios mais calmos e longe do local onde se assustou com o barulho do camião do lixo para que recupere a confiança de andar na rua. no final dos passeios, podemos passar no "local do crime" mas com alguma distância. e nunca ceder à vontade da bobina, quando de repente se assusta e começa a puxar para casa com todas as forças. terei de ignorá-la e seguir em frente sem lhe dirigir a palavra. ao voltar para trás, diz que estou a dar-lhe o comando da situação e a devolve-la ao ambiente onde se sente confortável porque me controla. espetacular!

tudo deixa de me parecer impossível, dada a força e motivação que a profª Ilda Rosa me transmitiu depois de registar no papel tudo o que fiz pela educação da bobina durante estes quatro anos. ao que parece, estas novas missões, ao pé de tudo o que já fiz, serão para meninos. posto isto, vou ali dar um grande abracinho à bobina e de seguida mandá-la para os primeiros 5 minutos de isolamento da sua vida, sem o coração apertado.

1ª consulta de comportamento animal

depois de algumas pesquisas no google, feitas de frases como "a minha cadela tem medo dos carros", ou "a minha cadela não quer passear", cheguei por portas e travessas ao nome da Profª Ilda Rosa, da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, especialista em comportamento animal. os comentários davam conta de que teria já ajudado a solucionar casos de cães com problemas, de que já uma série de veterinários teriam desistido. a história pareceu-me semelhante à da maioria dos casos mostrados nessa bíblia dos donos de cães, chamada O Encantador de Cães. com as devidas distâncias na atividade profissional de cada um, e até porque as possibilidades de ir até à califórnia e conseguir marcação com Cesar Millan estão na realidade ainda mais distantes do que o próprio estado da califórnia em relação a portugal, vi na Profª Ilda Rosa a nossa encantadora de cães nacional e marquei consulta.

a consulta foi hoje, 24 outubro 2012, durou cerca de uma hora e custou 38,5€.

a partir do momento em que entrei na sala da consulta fui proibida de comunicar com a bobina e obrigada a virar-lhe costas sempre que saltasse para as minhas pernas. assim fiz. custou-me os primeiros minutos porque nestes quatro anos contam-me pelos dedos de uma mão as vezes que a ignorei propositadamente, e sempre que o fiz foi com a intenção de a castigar, pelo que estava motivada para tal. hoje foi diferente. a bobina saltou, virei-lhe costas; a bobina chorou, ignorei; a bobina fixou-me com o olhar todo aquele tempo à espera de que olhasse de volta, e eu olhei para todo o lado menos para baixo. 

enquanto isso, fui respondendo às perguntas da profª, sobre os hábitos, comportamentos, rotinas e tudo o que à vida da bobina diz respeito. e por fim, parece que vai tudo dar à ansiedade. durante uma hora, a profª Ilda Rosa observou a bobina a tentar captar a minha atenção, autorizando-me apenas uma festa rápida sempre que ela se resignasse e se deitasse sossegada no chão. assim foi acontecendo. a capacidade de resposta da bobina não deixou indiferente a profª, que se mostrou bem mais motivada do que eu no que aos próximos meses da nossa vida diz respeito. no final da consulta, era ver a bobina mais tempo deitada do que à minha volta. bastou apenas uma hora para a miss ansiedade perceber que conseguia as festas, não com os habituais saltos e choradeiras, mas o simples facto de se estender ao comprido no chão.


diagnóstico: ansiedade

o regresso à escrita prende-se com o dia zero de uma nova vida para a bobina. depois de quatro anos a conviver com a ansiedade, que a bobina trouxe na bagagem quando veio cá para casa, os reflexos desse pequeno problema deixaram de poder ser considerados menores, em comparação com todas as conquistas que a pequenita tem feito, através da sua já inquestionável capacidade para absorver e apreender tudo aquilo que lhe ensino diariamente. 

em consequência de um episódio que não acrescentou nada à sua rotina diária, a bobina criou um pânico desmedido aos carros e barulhos que povoam as ruas da cidade, que lhe lhe está a condicionar a vida normal. Por se ter cruzado com um camião do lixo num dos passeios da tarde, a bobina vê agora qualquer viatura, e barulho, como ameaça iminente à sua segurança. e de uma cadela sociável, sempre pronta para ir à rua, e activa, a bobina passou a ser uma cadela que por vontade própria não punha nem o nariz fora da porta do prédio, e que pouco liga à vizinhança, tal é a pressa de voltar para casa assim que a faço sair de casa. 

é triste de ver como de um momento para o outro, sem razão aparente, o comportamento de um animal pode mudar. num minuto, não posso abrir a porta sem que ela saia disparada à procura de algum vizinho que lhe faça festas na rua ou lhe dê qualquer petisco para a confortar; no outro, tenho de a obrigar a sair, arrastando-a pela trela, enquanto a vejo colar-se ao chão com todas as forças à porta de casa, e a chorar quando a puxo em direção à rua.

diz que não é mais do que o culminar de um estado de ansiedade partilhado por muitos dos cães que um dia foram abandonados.