quinta-feira, março 31, 2005

in and out...

não gosto que me questionem lá fora sobre o que escrevo no burro. é meu. é pessoal. é mais um diário do que qualquer daqueles que mantive em tempos. é para ser vivido, questionado, comentado, o que quer que seja, mas aqui dentro. lá fora, a conversa é outra, a postura é outra. não gosto de levar a vida "virtual" lá para fora, já basta o tempo que passo a teclar e a olhar para o ecran.

as pessoas que me conhecem da vida lá fora (e que nao sabem da existência do burro) terão com certeza uma imagem minha bem diferente das que me lêem aqui. pelo simples facto de que há coisas que escrevo, que raramento digo. é que só a escrever encontro a frieza e a distância necessárias para arrumar certas ideias e complicações que cozinho mentalmente. escrever sobre e expor essas complicações aqui é a maneira que encontro para as ultrapassar na vida lá fora. e conseguir depois falar sobre elas com um encadeamento que permita a mais alguém, para além de mim, perceber o que quero dizer.

quem me conhece apenas do burro, do que aqui lê, sabe mais dos meus dramatismos interiores do que muita gente que lida comigo regularmente lá fora. é normal. não ando por aí a apregoar que me sinto inútil todos os dias, quando me perguntam corriqueiramente se está tudo bem comigo. claro que está tudo bem comigo. mal estão aqueles que aparecem todos os dias nas notícias.

tomamos café, passamos a tarde a falar de filmes, de férias passadas, de tempos de inter rail, do que me falta para acabar o curso. está quase. estamos desempregados. é mau porque o dinheiro escasseia, já nao se compra nada sem olhar o preço, sem olhar primeiro para o que resta na carteira, sem fazer contas, sem pensar numa desculpa que justifique a compra. é mau por isso tudo. mas sobretudo por tudo aquilo de que não chegamos a falar. a impotência interior de não conseguir sair desta situação pelos próprios pés. sobre isso escrevemos ao chegar a casa para sentir que nao ficou nada por dizer.

quem me conhece lá de fora e lê o burro, saberá fazer o devido enquadramento. e se assim for´é possível que me conheça melhor do que eu porque me observa com um distanciamento que nunca me será permitido. saberá mais de mim do que aquilo que eu julgo que sabe. porque não sei ao certo quem lê o que escrevo, nem até que ponto me leva a sério. nao é para levar. porque quando escrevo deixo-me levar, e digo mais do que quero dizer sem notar que o estou a fazer. escrevo a quente, no automático, porque preciso de passar certas coisas que de outro modo que não o automático não passaria. é o poder da terapia, do verbo embriagar, do mr brightside, do let go e deixar andar. é que a escrever posso ser mesmo quem eu quiser. coisa que lá fora demora uns bons aninhos a conseguir. mas e daí..... eu sempre gostei mais de tudo o que dá luta. posso ser difícil, mas também tenho uma especial atracção por dificuldades e casos impossíveis. e escrever é demasiado fácil.....


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