domingo, abril 03, 2005

ai os imortais, os imortais.....

há pessoas com quem criamos fortes empatias sem que saibamos explicar porquê. mesmo que aparentemente não haja nada em comum, a ligação está lá ainda que ao longe, e só sentimos até onde vai o grau da empatia em situações limite. o mesmo acontece em relação a figuras públicas. a mim pelo menos é frequente isso acontecer.

acredito em deus (apesar de não achar que tenho de escrever a palavra com letra maíscula), tive uma educação católica, sou baptizada, sei o pai nosso e a avé-maria de cor, fiz a primeira comunhão e a primeira confissão apesar de nunca ter percebido o que querem que uma criança de 11 onze anos diga ao senhor padre... lembro-me q na altura inventei qualquer coisa tipo "menti à professora de inglês". assim ao menos já teria resolvido o problema do que dizer na confissão seguinte. apesar de conseguir ver alguma lógica em todo o funcionamento da igreja católica, nunca entrei bem na rigidez do cumprimento das inúmeras regras/leis que todos conhecemos pelo que nunca as cumpri, sempre abominei o sentimento de culpabilização que passam de geração em geração, e nunca fui à missa ao domingo apesar de gostar de visitar igrejas e de sentir uma paz quando lá entro que poucas outras coisas têm o poder de proporcionar.

estive no estádio do restelo numa das vindas do papa a portugal. não me marcou de forma alguma, não me lembro de nada, a nao ser da confusão de gente. nunca tive qualquer espécie de afinidade com o papa, daquela de que falava no início. habituei-me a vê-lo como um velhinho de ar simpático, com bom fundo, com uma força incrível. mas sempre muito ao de longe. habituei-me a ouvir dizer que estava doente, mas que não cedia a entraves e continuava a viajar apesar de todos dizerem desde sempre que a saúde está primeiro. e cada vez mais doente. e mais uma viagem. é assim que me lembro do papa - em viagem, a sorrir, a acenar, o olhar doce e brilhante. nao quero sequer reter as imagens que imaginei ao longo destes últimos dias com base na cobertura televisiva do assunto.

foi quando liguei a televisão anteonte de manhã e vi na barra da tvi a frase "papa está a morrer serenamente" que percebi que afinal tinha a tal empatia com o senhor. fiquei em estado de choque, senti o coração acelerar e não acreditei no que estava a ler. era forte demais para o dia das mentiras, mas naquele momento apercebi-me que com o tempo, e sem dar por isso, me fui habituando à imagem do papa como de um homem que resistia a tudo. até à morte. e dei-me conta de que estupidamente e infantilmente nunca tinha pensado que um dia o coração não resistiria mais. há pessoas que tomamos como garantidas para sempre. mesmo sem as conhecer. é a tal imortalidade dos sentimentos. mesmo que não haja nada em comum. e ontem quando cheguei a casa e li já perto das quatro da manhã a notícia da morte do papa no público online não consegui reter as lágrimas. mesmo que para mim o domingo seja um dia qualquer. e todos sabemos que os sentimentos não se explicam. as empatias.


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