quarta-feira, março 02, 2005

most of the time.....

ando com muito tempo livre para a minha média habitual. tenho feito por utilizar o tempo que me sobra - e pensar que andei a anos a amaldiçoar o facto de não saber o que isso era - para redescobrir os prazeres da vida de café e reencontrar amigos que entretanto se haviam tornado fantasmas, tal como eu. prometi a mim mesma que ia tentar voltar a pôr-me na pele de quem não tem tempo para se coçar, e que pensa diariamente como era bom estar sem fazer nada um mês inteiro. a terapia não é fácil. já todos constatámos que quanto menos temos para fazer, mais difícil parece que é arranjar tempo para fazer o que quer que seja. não sei como arranjamos isso, mas não há volta a dar.

gostei de ter tido todo o tempo do mundo para ler as chronicles do bob dylan no mês passado. mais do que para saber certos pormenores de carreira que desconhecia por completo, para ficar a conhecer o lado humano do artista, a sua fixação pelas canções do woody guthrie, o fascínio com a descoberta do robert johnson, o trabalho com daniel lanois, a construção passo a passo de oh mercy, voltar a ouvir o oh mercy depois de conhecer o percurso que levou dylan e lanois até àquele resultado final. e voltar a constatar que most of the time continua a ser uma das canções que mais gosto do repertório dylan, the father, e que continuo a ser incapaz de continuar a fazer o que quer que esteja a fazer de cada vez que a volto a ouvir. e só tenho pena de não ter sublinhado certas frases escritas pelo artista ao longo do livro, mas de há uns anos para cá comecei a achar que dava cabo dos livros com sublinhados e considerações minhas escritas nas margens. há ali verdades universais que no fundo já todos conhecemos mas ainda não descobrimos, pelo simples facto de que não as sabemos dizer como ele. é aquela sensação de "não me lembrava bem, mas agora que disseste, lembro-me que já sabia". falava hoje disso mesmo com o gonçálio, e é verdade... a idade é mesmo um posto.


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