sou fã do luís osório, acho que desde a altura do portugalmente. durante uns tempos perdi-lhe o rasto, talvez por desleixo meu, mas na memória tinham ficado flashes de uma entrevista feita a seu pai, que apanhei de fugida na rtp2 durante não mais de 10 minutos num total cheio de interrupções. não cheguei a perceber bem do que tratava, mas durante semanas dei por mim a ir buscar algumas imagens e palavras ditas durante aqueles tão curtos 10 minutos in cold blood, que na altura nem reparei que estava a absorver. as semanas passaram a anos e não foram poucas as vezes que me arrependi de não ter deixado o programa a gravar...
1 de dezembro de 2004. chego a casa à meia-noite e pouco e ligo a televisão para ver se dava algum filme de jeito. parou tudo. lembro-me que fui à sala ligar a televisão antes de ir à cozinha buscar o snack da meia-noite para compensar o jantar que não existiu, e que acabei por não comer nada... [só me fez foi bem]... apanhei a entrevista quase de início outra vez na 2, a propósito do dia mundial da luta contra a sida, e consegui finalmente fazer as devidas contextualizações. li entretanto em pesquisas várias e tardias sobre o assunto que a entrevista é afinal um documentário chamado "quanto tempo" em que luís osório entrevista o pai, josé manuel osório, portador do vírus da sida. a mãe, a infância, a doença do pai, a ausência sentida do pai... cintra torres analisou exaustivamente no público o conteúdo, a forma e o alcance da peça. fiquei com outra visão acerca do que tinha visto. menos emocional, talvez.
a intimidade está lá, os chamados planos de pormenor a focar os olhos emocionados de pai e filho também, as histórias da infância, da família, o desenrolar da doença, tudo jogado de um para um, em sofás distantes e sob o olhar das câmaras, anos mais tarde. aparentemente tudo o que não foi dito anteriormente e que não podia ficar por dizer. não sou grande tele-espectadora, mas foi das coisas de que tenho memória que mais me impressionou na televisao que por cá já se fez.
dei por mim a pensar que para mim o jornalismo podia bem ser aquilo e reparei que o terreno era muito escorregadio. gosto de ver, ler, ouvir jornalistas apaixonados, envolvidos, cegos, pior que estragados, mas emocionados com o trabalho que fazem. gosto de sentir o que eles estão a sentir, para bem ou para mal. porque a escrita vive disso mesmo, de passar emoções, que não se expressam de outra maneira para quem as escreve. escorregadios são os limites. não gosto de acabar de ler um texto sem ter a certeza se quem o escreveu o fez com intenção a ou b. passa-me a sensação de que quem o escreveu não se quer comprometer com a nem com b. então para isso, que não o tivesse escrito. gosto de ler opiniões bem marcadas, de ver quem escreve defender a sua posição até à última, gosto especialmente que me façam duvidar daquilo em que acredito, e que me façam mudar de opinião, porque quando escrevo tento fazer o mesmo. a escrita é para ser sentida, por quem a escreve e por quem a lê. em televisão não encontro isso. é um meio muito formatado, muito artificial, muito pouco sincero. daí ter ficado tão impressionada com o documentário. mais depressa o imaginava publicado em livro.
tudo isto para dizer que gostei de ler hoje a causa-nossa do luís osório.
Sem comentários:
Enviar um comentário