terça-feira, fevereiro 03, 2004

lost in translation - quem não viu, NÃO LEIA

o Burro corre o risco de estragar a surpresa a outros Burros, mas a vontade de escrever é mais forte. O aviso está feito: se não viu lost in translation, não leia as linhas que se seguem, Vá, antes, ao cinema.

vi o lost in translation no domingo à noite. tenho problemas de insónias frequentemente, e quem também os tem sabe que há poucas sensações tão desesperantes como ter sono, não conseguir dormir e ver o tempo a passar. e de manhã o cansaço é maior do que na noite anterior. há duas noites que acordo às quatro da manhã a pensar no filme, naquele final, no segredo que ficou por revelar, e a ouvir o "just like honey". é fácil revermo-nos naquelas personagens, naquela situação. a evolução do à-vontade natural de duas pessoas que nunca se viram e que provavelmente nunca voltarão a ver-se. a disponibilidade para ouvir e dizer tudo o que apeteça. só o que apeteça. e de repente o à-vontade desaparece porque os sentimentos baralham-se, e o que era simples por ser abstracto começa a desenhar-se de forma muito mais concreta. mas concreta era também a certeza de que aquele final feliz só era possível ali, longe de casa, onde não tinham mais nada nem ninguém a quem se agarrar. a sensação é a mesma de estarmos de férias num país distante com quem gostamos durante uma semana, e em que só há tempo para ver os aspectos positivos. daí a tal ideia - «embora nunca mais voltar cá porque nunca vai ser tão divertido». e não vai.
e apesar de toda aquela impossibilidade ser muito clara não se consegue, no entanto, deixar de sentir o frio no estômago quando os dois se despedem tão friamente no quase-final. quase com medo de se despedirem da forma errada. mas a experiência de vida dele e os anos que levava de avanço em relação a ela permitiram-lhe perceber que a história não estava terminada. impressionante também a facilidade com que a encontra no meio de toda aquela confusão das ruas orientais - a mesma com que com uma facilidade inexplicável encontramos em locais cheios de gente pessoas com quem temos relações fortes. forte... aquele abraço final. aquele segredo tranquilizador. o sorriso com que ambos se afastaram. e sensação de paz de "just like honey". depois de revistos mentalmente estes fragmentos finais é mais fácil adormecer.


Orelhas de Burro:


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