terça-feira, dezembro 30, 2003

ainda os radiohead

já que neste momento ninguém fala deles, o Burro arma-se em excêntrico e em vez dos tradicionais balanços aproveita esta súbita febre radiohead (desencadeada pela audição do "no surprises" numa revisão natalícia da "residência espanhola") para recordar a confusão de ideias que escreveu a quente, muito quente, por alturas dos concertos dos coliseu, e que acabaram por ir depois para à caixa de correio de alguns Burros amigos.

o thom yorke merece todo o alarido que foi feito à volta dos concertos dos radiohead ao longo dos últimos meses. eu confesso que mesmo antes de entrar no coliseu voltei a comentar com a rapariga que aguardava a vez para a entrar ao meu lado que não percebia o porquê de tanta histeria à volta de
um concerto. uma fila para entrar que ia quase até rossio, mas ela dizia que estava a andar depressa. e estava. e como estes sentimentos de euforia são contagiantes depois da primeira parte puseram um som de fundo parecido com os batimentos cardíacos e de um momento para o outro apercebi-me que também já tinha entrado na euforia e que se fosse de manhã também eu tinha ido para a porta antes do almoço para ter ficado na primeira fila. e que se estivéssemos três meses atrás também eu tinha comprado um bilhete para cada dia como aquele rapaz a quem eu lancei um olhar de espanto quando soube que ia aos três concertos de lisboa.
o concerto acabou há pouco tempo e parece que ainda tenho a voz do t.y. na cabeça. amanhã de manhã provavelmente já não vou sentir isto da mesma maneira por isso não me apetece dormir. sei que amanhã não vou estar a sentir o mesmo que sinto agora e não me quero esquecer. o gajo canta com uma intensidade arrepiante e até de costas a tocar piano ele consegue ser expressivo. cria momentos que poucos têm o dom de conseguir criar e quando acaba a música olha para nós com o ar mais simples do mundo, envergonhado até (e não me venham dizer que é para a figura que os tímidos identificam muito bem os tímidos), como se não se tivesse passado nada...
e posso finalmente riscar da minha lista mental de músicas obrigatórias a ouvir ao vivo o "street spirit (fade out)". O gajo é um artista. Nasceu para aquilo. Se a voz é o que é em disco, ao vivo é ainda melhor, e todos os tiques, as danças maradas, o ar de lunático e de gajo-esquisito, de cabelo no ar, cada vez mais magro, ajuda muito ao espectáculo. O paranoid android foi muito bom, o everyhting in its right place também, foi tudo muito intenso, deu mesmo para abstrair das palmas exageradas habituais do público e concentrar toda a atenção na música. O momento alto foi (depois do street spirit e tendo em conta que não tocaram high and dry nem fake plastic trees) o fecho do concerto. Escolheram o "how to disappear completely", a musica mais deprimente (no bom sentido porque eu o que eu mais gosto nos radiohead é mesmo a nostalgia toda que nos fazem vir ao de cima de um momento para o outro) do kid a, que só de pensar no que se passou ali ainda fico arrepiada. Como é que se perde uma coisa destas e se consegue
dormir à noite?
O t.y. é ele mesmo, é deprimente, é genuíno, intenso, é esquisito, é artista, é boa pessoa. Tem de ser.

O que me assusta: estive para vender o bilhete.

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