quarta-feira, outubro 06, 2004

era uma vez... gente sentada e outras histórias...... directamente da rua de baixo

A harmónica omnipresente e os óculos charmosos de um Nicolai Dunger ao longe envelhecido, ao perto sorridente. As viagens, os desenhos a lápis de cor, a calma e a paz de espírito penetrantes de Sufjan Stevens e sua guitarra. As histórias mirabolantes, as aulas de ballet ao som de Lauryn Hill, as diversas vidas de Rosie Thomas. As afinações em directo, as aulas de português e a alegria de tocar de Kate Walsh. A presença, a segurança, a descontracção, o peso americano e a mão amiga de Robert Fisher. A alucinação, o delírio, a dança das cadeiras, os cabelos desgrenhados, a volta à América em oitenta minutos, o vinho do Porto de Devendra Banhart e companhia. As histórias de todos eles.

Longe da dinâmica fria e mecânica que, salvo raríssimas excepções, habitualmente marca o andamento dos grandes festivais em Portugal, o Festival para Gente Sentada funcionou como uma espécie de segunda casa para todos os que se deslocaram até Santa Maria da Feira nos dias 1 e 2 de Outubro. Artistas e anónimos. Até mais do que a simplicidade desarmante da música que desfilou pelo palco do Teatro António Lamoso, saltou à vista a humildade, o profissionalismo e o amor à camisola que partilham todos os músicos que fizeram deste fim de semana uma belíssima estreia para um festival inteiramente dedicado ao songwriting, e que acabou por funcionar como uma concretização das pistas lançadas no palco Songwriters do saudoso Paredes de Coura 2004. Há público, há música para mostrar, há músicos para tocar, há espaços para aproveitar.

Dois cenários nocturnos. Um exterior, campestre. Outro caseiro, de sala de estar. Não interessa situar quem actuou onde e quando, porque feitas as contas no final e vistas bem as coisas num todo, a totalidade dos músicos intervenientes na tertúlia sentada partilharam o mesmo quarto, perdão, o mesmo palco, e circularam pelos espectáculos alheios. A familiaridade sentia-se à distância, o ambiente intimista estendia-se muito para além dos cenários e dos jogos de luzes pensados ao pormenor. Os chamados artistas assistiram aos concertos uns dos outros, participaram nos concertos uns dos outros, contaram histórias, muitas histórias, à lareira e partilharam experiências de vida com o público.

Por entre toda esta humildade desarmante houve música. Outra vez a harmónica de Nicolai Dunger. Os sonhos à guitarra de Sufjan Stevens. A nostalgia ao piano de Rosie Thomas, que no final da noite tentava comprar um disco de Kate Walsh ao balcão. A “bagagem” e o humor sábio de Robert “Willard Grant Conspiracy” Fisher, que a meio do concerto deu carta branca ao público para conversar, dado que o espectáculo não estava a decorrer numa biblioteca, e aproveitou também para enviar os devidos agradecimentos ao DJ de serviço da noite anterior [Miguel Quintão] que incluiu no set o tema “Soft Hand” dos Willard Grant Conspiracy. A encerrar em grande a maratona de concertos, Devendra Banhart fez jus ao hype que à sua volta foi criado ao longo dos últimos meses e que foi responsável pela deslocação da maioria dos presentes em Santa Maria da Feira e deu um espectáculo poderoso do princípio ao fim com a respectiva banda. Um resumo da história da música americana, roots, rock, reggae, houve espaço para tudo, menos para todos
quantos gostariam de ter estado sentados durante o espectáculo. Há males que vêm por bem. No final, se uma cadeira incomodava muita gente, várias cadeiras incomodavam muito mais. Havia gente em pé. Finalmente.

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